Violão Erudito - Moschella - voltar à entrada do site
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Entrevista com o maestro e compositor Aylton Escobar
Realizada para o Jornal da Tarde (SP) em dezembro de 1994 por Alexandre Moschella

Escrita planimétrica. Procedimento aleatório. Serialismo. Textura. Envelope. Silêncio. De que estamos falando? Informática? Códigos secretos da CIA? Física quântica? Não, falamos de música. Acadêmica e contemporânea, aquela produzida por compositores brasileiros de nível internacional, recebida no chamado Primeiro Mundo com prêmios, festivais e muita mídia. E resumida no Brasil em acontecimentos isolados - o Festival de Inverno Campos do Jordão, o Festival Música Nova e outros nobres cultos que se espalham pelas trincheiras de centros culturais, universidades e teatros municipais. As atividades são intensas, organizadas e corajosas, o intercâmbio internacional idem, mas o público brasileiro em geral ainda prefere um macio e confortável Mozart - quando tem acesso a ele.

Como sempre, o desenvolvimento da música considerada erudita no Brasil está anos-luz à frente da merecida divulgação e da admiração do público. Há algumas décadas, o nacionalismo de Camargo Guarnieri, sob as luzes de Mário de Andrade, começava uma grande luta por espaço. Hoje, a conquista é clara. Os festivais cresceram, as orquestras se estabilizaram e surgiram novas escolas, como a Universidade Livre de Música (ULM), criada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Seu diretor, o regente, compositor e professor paulista Aylton Escobar, encarna um ideal renovado - o de divulgar a complexa produção de vanguarda (já desvinculada do nacionalismo radical) sem esquecer da música popular e de todas as manifestações musicais do país.

Com uma longa lista de prêmios (duas vezes no Festival de Música da Guanabara, Prêmio Molière de música para teatro e cinema, entre outros) e de obras encomendadas para festivais dos EUA e da Europa Ocidental e Oriental, Escobar divide seu tempo dando aulas na Escola de Comunicações e Artes da USP e na Faculdade Santa Marcelina, e dirigindo a ULM e o Festival de Inverno. O maestro, que fundou ao lado de Edino Krieger a Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, não se considera "erudito". "Sou músico", proclama, lembrando que muitos se esqueceram de que toda boa arte é universal. Ele explica que a divisão entre música "popular" e "erudita" é ilusória, porque uma serve-se da outra. A separação, na verdade, tem origem social, muitas vezes preconceituosa. Para Escobar, as difíceis linguagens da vanguarda e os cantos dos índios brasileiros, igualmente valiosos, são uma única música: a música.

Jornal da Tarde: Haverá uma maior aproximação entre a música de vanguarda e o público brasileiro?

Aylton Escobar: Essa questão está muito ligada ao que chamamos de acesso ao conhecimento de um modo geral. Estamos falando em desenvolvimento espiritual e intelecutal de todo um povo. Escolas, bem-estar social. Há uma série de coisas que leva as pessoas a ouvir música erudita não como se recebessem um bálsamo apenas em momentos tranqüilos, mas como um cultivo tão comum quanto qualquer outro que culturalmente tenha sentido. No caso da música erudita em nosso país, pode-se dizer que ela é indicada por uma determinada camada social que tem acesso a isso tudo. Ainda nem estou falando de espírito, que não tem nada a ver com esta classe social, crescida do ponto de vista econômico, mas não necessariamente do espiritual. Esta classe, de um modo geral, toma para si a música erudita. É a velha casa grande em relação à senzala. A ópera, por exemplo, que hoje costumamos assistir com roupas maravilhosas e jóias no Teatro Municipal, é um gênero essencialmente popular. Hoje uma camada social a tomou para si e a fechou, para que outros não ficassem usando. É como uma dona de casa rica, madame de apartamento que compra um vestido e, se um dia a empregada usar esse modelo, ela fica furiosa, rasga o seu, ou rasga o da empregada. Nem a amiga, da mesma classe social, pode usar o vestido!

P: Os compositores de vanguarda, que trazem para cá grande quantidade de informação das escolas européias e americanas, deveriam esforçar-se para aproximar seu complexo discurso musical do público de seu próprio país?

Escobar: A pergunta não é exatamente esta. O mundo tem se estreitado, as diferenças entre culturas e idiomas se reduzem. A arte também tem falado do homem contemporâneo tomado universalmente. Claro que as particularidades são coisas que cada povo deve valorizar. Mas uma obra brasileira que pretenda ser universal pode ter uma linguagem aberta e livre justamente por estar impregnada de elementos culturais brasileiros. A questão, na verdade, é outra. As pessoas não deveriam entender que uns são mais desenvolvidos culturalmente que outros, portanto deve-se imitar os primeiros. Se um povo tem segurança em relação a sua cultura, ele sente-se manifestando-a, e por isso mesmo é internacional. Por exemplo: à parte o talento de Kurosawa, seu cinema é universalmente admirado porque é fundamentalmente japonês. A música que fazemos aqui, se dodecafônica ou não, é diferente das outras.

P: Há uma crescente dificuldade de acompanhar, auditivamente, a evolução do discurso musical?

Escobar: De maneira alguma! Em nenhum lugar do mundo! Para começar, tudo o que se faz em música é decorrência natural do que veio antes. E o mais surpreendente é que em nosso país, que é muito jovem e cheio de expectativas, é muito mais fácil ter uma leitura do contemporâneo, das liberdades criadoras. Em países convencionais, como os europeus, há um cultivo tão forte da tradição que não há espaço para as inovações. A crítica é muito mais feroz e o apego ao passado também é maior. Nosso problema é que não existe, aqui, o acesso das pessoas a esse tipo de cultivo. E quando há o acesso, é incompleto. Uma pessoa com fome não escuta música. Tampouco alguém com a barriga excessivamente cheia...

P: E a música popular?

Escobar: Achamos que a penetração deste gênero é fácil, mas que música popular tem isso? Quais são os meios que a favorecem? Qual o tipo de repetição que acaba por entorpecer a pessoa para que ela ouça mesmo não querendo, ou ao menos por fazer com que o hábito conquiste o gosto? Não é o que acontece com a música de concerto, em teatros fechados, ocasiões caríssimas. Ambientes exigentes e requintados. Tudo leva a um tipo de silêncio e compenetração. E há também a música popular que é impopular, como por exemplo Egberto Gismonti, que não embarca no circuito comercial. E de que música popular estamos falando? A música das capitais é diferente da música dos caboclos, dos índios do sul do Pará. Mas esta também possui uma estética difícil de compreender. É uma música que não foi feita para teatros, mas também é exigente. O que importa, ainda, é o conhecimento, o ensino, a opinião crítica. Deve-se ter todas as músicas à disposição. Ninguém é obrigado a gostar de Mozart para se sentir evoluído. E a música que cultivamos nos grandes centros de modo algum dá atenção a aquilo que popularmente faz parte da nossa cultura. Se você desconhece José de Alencar, ou um poeta brasileiro importante, e pronuncia sem dificuldade uma palavra estrangeira sem saber de onde ela vem, conformando uma cultura de fachada que alimenta as pessoas e dá crédito a elas, então estamos muito mal.

P: O atual ensino reflete isso?

Escobar: Nosso ensino é tradicionalista, velho, napoleônico, existe para colorir uma sociedade que não quer mudar. O conservatório, a escola de música de um modo geral é oriunda desse espírito estático. Estes lugares querem gente que faz manutenção de música.

P: Muitos jovens sonham apenas em tocar muito bem um instrumento, para conquistar fama e entrar num mercado fechado.

Escobar: Um músico com uma idéia fixa na cabeça é normal. Mas se ele se fecha em determinada coisa, isto é tão gigantesco que ele não atinge. Se ele se abre a todo o conhecimento, seu sonho está incluído. Pois tudo é atingido na medida de seu exato inserimento. O problema é que as escolas ou são extremamente passadistas, ou revolucionárias a ponto de abjetar qualquer conhecimento tradicional. Isso tira a liberdade. E a sociedade, por viver desse tipo de lançamento no mercado, também faz isso.

P: Como superar esta limitação?

Escobar: O estudante deve ser ativo no processo de ensino. Se ele não se abre e não tem curiosidade, não tem o princípio fundamental do conhecimento. E se ele mesmo não busca isso e não provoca, não elabora questões em si mesmo, não tem como responder às questões. O principal é interesse, curiosidade. Esta passividade que encontramos nos jovens de hoje, por facilidade da fama, de objetivos que o mundo vai ditando e as pessoas aceitam sem pensar, é que tem feito as coisas assim. Acredito que o jovem pode não ser de natureza acomodada, mas pode acomodar-se em razão de alguma coisa que ele presume ser mais viável. É muito importante que as coisas sejam dignificadas, e para isso é preciso também uma grande humildade, que o ensino e as atividades sociais não têm tido. Você olhar uma manifestação folclórica, simples, olhar uma atividade popular, olhar uma atividade chamada trabalhada, erudita, tudo com o mesmo espírito, aí sim é interessante. Quem escutasse Chitãozinho e Chororó escutaria, com o mesmo grande interesse, uma obra de Mozart, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri. Estas coisas não podem ser negadas às pessoas. Cabe à inteligência de um lugar cultivar-se e cultivar tudo, sem estas coisas fechadas.

P: Considera-se um músico erudito?

Escobar: Poderia ser chamado assim por estar elaborando o que faço. Acontece que na música popular pode-se encontrar um grande número de compositores com trabalho extremamente requintado. Gismonti, Chico Buarque. Não critico quem não teve sensibilidade para uma coisa ou outra. As pessoas sempre estão crescendo. Mas já fiz música para teatro, cinema, já escrevi samba, rock. Prefiro dizer apenas que sou músico. Não vejo em lugar nenhum as pessoas separarem "dança erudita" de "dança popular", ou "pintura erudita" de "pintura popular".

P: Alguma vez o público vaiou uma composição sua?

Escobar: Infelizmente não! Pois o que importa é que as pessoas sejam mobilizadas. A vaia, assim como o aplauso, mostra que as pessoas têm discernimento, senso crítico. Mas alguém já foi vaiado em meu respeito. Em 1968, ganhei o Festival da Guanabara com Poemas do Cárcere, usando versos do vietnamita Ho Chi Min. A obra teria de ser tocada no final, mas o governo militar proibiu. Quando anunciaram a decisão, o público, no Teatro Municipal do Rio, explodiu em vaias. Acabei não recebendo o prêmio.

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