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O Estado de S. Paulo - 31/12/2002 - Tradução de Alexandre Moschella

Por que os pianistas de hoje são tão chatos?
Talvez seja fruto de uma mudança dos tempos, até mesmo da vida musical, mas, embora os artistas de agora possam tocar todas as notas tão bem como antes, elas trazem menos significado do que em outras épocas

MARTIN KETTLE
The Guardian

LONDRES – A gota d’água foram as críticas dos últimos recitais de Evgeny Kissin. O brilhante pianista é regularmente celebrado como o maior da era moderna. Mas suas críticas foram terríveis. Os fãs o aplaudiram, mas os críticos odiaram sua maneira de tocar tecnicamente perfeita. Sem ter sido impressionado por Kissin, como sempre, fiquei com os críticos. Mas isso me fez refletir que o problema pode ser mais profundo que um único pianista. Se houvesse um jeito mais brando e gentil de dizer isso, eu diria. Mas em minha opinião, os modernos pianistas de concerto se tornaram chatos. Pouquíssimos têm algo interessante a dizer.

Fazer tais afirmações é convidar a alguns sinceros ataques. Alguns dirão que não são os pianistas que são entediantes, sou eu que estou entediado com o piano. Talvez seja o caso. Mas apenas tenho de ouvir um disco de Schnabel para saber que nunca enjoarei dele, em nenhum grau. Outros perguntarão o que alguém que não toca piano pode dizer sobre o assunto com alguma autoridade. Não tenho resposta a isso.

Acredito que recitais de piano – e gravações – costumavam ser muito mais recompensadores do que hoje. É esse, objetivamente, o caso? E, se for, por quê? Muitos dirão: “Mas e quanto a fulano? Como você pode rejeitar um artista como X ou Y?” E isso, é claro, também é de certo modo impossível de responder. Como alguém em sã consciência pode ignorar um artista como Mitsuko Uchida, por exemplo? Mas talvez o mundo no qual ouvimos Uchida tenha mudado mais do que percebemos.

Houve um tempo em que o piano era o mais acessível e poderoso meio de música para muitas pessoas. O piano estava para a cultura musical assim como o motor de combustão interna estava para a mobilidade. A revolução do piano teve início por volta da época de Beethoven e começou a chegar ao fim com a chegada do LP. Mas, claramente, sua era terminou.

O apogeu do piano estendeu-se de cerca de 1830 até 1960. Isso é verdade em quatro aspectos, todos interligados. Primeiro, houve a revolução técnica no próprio instrumento. Segundo, a explosão da grande escrita para esse maravilhoso novo instrumento, estendendo-se de antes da era de Chopin até depois da era de Prokofiev. Em terceiro lugar, uma sucessão de intérpretes acima da média (dos quais Liszt é geralmente reconhecido como o ponto de partida) que deram concertos e mais tarde fizeram gravações que aprofundaram o entusiasmo do público com as possibilidades do piano. Finalmente, a crescente disponibilidade do piano tipo armário e de partituras relativamente baratas, o que forneceu os meios principais para a atividade musical doméstica na sociedade industrial.

Os dias em que todas as casas de classe média e muitas da classe trabalhadora tinham um piano – e uma pessoa que sabia tocá-lo – não foram completamente apagados da memória. Mas estão sumindo rapidamente. O gramofone, o rádio e, acima de tudo, a televisão há tempos substituíram o piano como o foco e principal fonte de entretenimento doméstico. Ele nunca vai recuperar essa posição.

A queda do piano foi acompanhada pela decadência do reabastecimento do repertório para o instrumento. Como em todo o restante da música, os compositores seguiram outros caminhos. Quem desde, digamos, Shostakovich escreveu música para piano que genuinamente mantém seu lugar no repertório dos recitais? Certamente, poucos compositores ainda escrevem música que amadores consigam tocar – ou, o que é mais importante, música que os amadores queiram tocar, mesmo em edições simplificadas.

Nesse contexto, não surpreende que o próprio recital de piano tenha sido obrigado a acompanhar a decadência. O recital sem dúvida se tornou uma parte menos central da vida musical. Há menos recitais. Eles não são eventos tão grandes em termos de bilheteria ou artísticos. É claro que há exceções. Sempre há. Mas estaremos enganando a nós mesmos se fingirmos que nada mudou.

Arte viva – Isso nos leva de volta aos pianistas modernos e ao problema de determinar se eles continuam – ou poderiam continuar – incólumes em meio a tantas alterações em seu mundo. A resposta tem de ser não. Assim como o lugar do piano mudou, o lugar do pianista mudou. Os pianistas, e o público que os ouve, não podem mais ter a certeza de que representam uma forma de arte viva que se regenera constantemente. E isso transparece no ato de tocar.

Não se pode discutir o fato de que a era do “leão” pianístico – de Liszt e Rachmaninov – está morta. Ela morreu com Vladimir Horowitz no mesmo mês em que o Muro de Berlim caiu. Foi o fim de uma era na qual o pianista era uma estrela, uma era na qual os pianistas podiam ser vistos como demônios possuídos por brilhantes e mágicas habilidades técnicas. O mais impressionante, acredito, é que a era do pianista intelectual, o clerical intérprete das obras clássicas, está desaparecendo também.

Essa tradição, que se estende de Bulow e Busoni a Schnabel e Arrau (com um breve desvio até o beco sem saída de Glenn Gould), hoje sobrevive em grande parte em Alfred Brendel. Mas com o passar dos anos, mesmo essa tradição vai se desgastando no mundo pós-moderno.

Arthur Rubinstein disse uma vez sempre ter considerado Brahms um compositor moderno. Isso não era uma manifestação de gosto conservador de parte do grande pianista. Era simplesmente a verdade. A juventude de Rubinstein havia coincidido com a velhice de Brahms. Quando Rubinstein tocava Brahms, tocava a música de um homem que era parte de sua própria época. Ouça as maravilhosas gravações de Brahms que ele deixou. Elas mostram isso.

Há 20 ou 30 anos, ainda era relativamente fácil ouvir pianistas veteranos que sabiam em seu âmago, como sabia Rubinstein, que eram artistas numa tradição viva de interpretação. Essa qualidade brilhava em tudo que essas pessoas, como Arrau, Wilhelm Kempff ou Rudolf Serkin, tocavam. Todos os três foram, pelo que sei, instruídos por alunos de Liszt. E Liszt havia sido beijado na testa por Beethoven em carne e osso. O Beethoven de Arrau sempre teve um tom sagrado. Os recitais de Serkin com Beethoven e Schubert, dos quais ouvi vários, eram experiências irresistivelmente criativas como ninguém mais ouve hoje em dia. De novo, as gravações de Serkin fornecem a prova.

Nostalgia – Isso tudo pode parecer um exercício de nostalgia. Mas épocas de ouro realmente existiram. Os anos 60 e 70 foram o final de uma época dessas. Mas aqueles anos não eram algum capricho dos deuses pianísticos. Estavam enraizados na história cultural européia que os precedeu imediatamente. Parece-me significativo que alguns dos melhores jovens pianistas daquela época gradualmente se afastaram do piano-solo nesta. Se isso foi uma rejeição consciente, sem falar numa ação coordenada, é difícil saber. Mas
entre os quatro mais celebrados pianistas de 60 e poucos anos daquele período, apenas um continua a tocar regularmente.

Daniel Barenboim ainda dá recitais de piano ocasionalmente, mas há mais de 30 anos seus talentos notáveis têm focalizado a regência. Martha Argerich, que muitos tendem a considerar a maior pianista viva, não deu, até onde sei, nenhum recital-solo nos últimos anos, preferindo (quando ela aparece) tocar concertos e música de câmara.

A retirada de Vladimir Ashkenazy é especialmente marcante. Como Kissin, Ashkenazy emergiu da Rússia com uma técnica que parecia superar todos os obstáculos. Mas diferentemente de Kissin, a habilidade técnica de Ashkenazy foi subordinada a uma rara sensibilidade e autoconsciência. Há alguns anos, ele também tem virado as costas à carreira de virtuoso.

O recitalista sobrevivente daquela geração, Maurizio Pollini, parece abalado de uma maneira diferente pela herança pianística. Os anos não desgastaram sua técnica ou sua integridade intelectual, mas ultimamente surgiu uma perturbadora frieza em sua maneira de tocar. É como se, na busca da objetividade, Pollini agora procurasse negar o que foi previamente compreendido pela interpretação.

Isso não significa que não haja mais recitalistas importantes, ou que nenhum pianista faça mais gravações que valha a pena ouvir. Brendel, Uchida, Maria João Pires, Andras Schiff e Jean-Yves Thibaudet são todos pianistas ativos que, de várias maneiras, continuam a melhorar nossa compreensão da forma artística. Não se trata da “morte do piano”. O piano jamais morrerá. Mas os grandes dias já se foram. Com o passar do tempo, o piano está se tornando cada vez mais um instrumento musical histórico e menos um instrumento
criativo. Talvez isso explique por que, embora os pianistas possam tocar todas as notas tão bem como sempre, elas trazem tão menos significado para alguns de nós do que outrora trouxeram.

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