Violão Erudito - Moschella - voltar à entrada do site
Press releases e Moschella na imprensa Página principal Programação de recitais Amostras sonoras e em vídeo Imagens em estúdio, ao vivo, carreira, amigos Peças do repertório atual Textos sobre violão e música Outros sites interessantes e úteis Para recitais, aulas, master-classes, palestras Enter the site in English Deixe seu recado!

Monsieur Croche, o antidiletante
Claude Debussy
Tradução: Alexandre Moschella

 

Era uma tarde encantadora. Eu decidira ficar à toa. Quero dizer, é claro, que eu sonhava. Não quero dizer que algo de grande valor emocional acontecia, ou que eu instituía os alicerces do Futuro. Apenas aproveitava aquele humor despreocupado que traz a paz com o mundo todo.

E com que sonhava eu? Quais seriam meus limites? Qual o objetivo de meu trabalho? Questões, temo, motivadas por um certo egoísmo pueril e a ânsia de escapar de um ideal com o qual se tem vivido tempo demais! Questões, sobretudo, que não passam de um fraco disfarce para o tolo anseio de ser considerado superior aos outros! A luta para superar os outros nunca foi realmente importante quando dissociada do nobre ideal de superar a si mesmo - embora isto, envolvendo o sacrifício da estimada personalidade das pessoas, implique num tipo muito especial de alquimia. Além disso, a superioridade em relação aos outros é difícil de manter e resulta, no fim, em nada mais que uma vitória vazia. A busca da aprovação universal representa uma grande perda de tempo em contínua demonstração e laboriosa auto-propaganda. Estas coisas podem valer a alguém a honra da inclusão em uma coleção de distintas pessoas cujos nomes são usados como tempero em insípidas conversações sobre arte. Mas não vou elaborar sobre isso. Eu não gostaria de me deter na ambição.

A noite estava vazia como sempre, mas, como já deve ser óbvio, eu estava indisposto comigo mesmo - havia perdido o controle e descoberto que mergulhava nas mais irritantes generalizações.

Neste preciso momento a campainha tocou e tomei conhecimento de Monsieur Croche. É desnecessário deter o fluxo desta narrativa com a obviedade dos frívolos incidentes de sua primeira visita.

Monsieur Croche era um homem magro e enrugado, e seus gestos eram claramente apropriados a conduzir discussões metafísicas; suas feições são melhor descritas se lembrarmos aquelas de Tom Lane, o jockey, e M. Thiers. Ele falava quase num sussurro e nunca ria, às vezes reforçando seus ditos com um quieto sorriso que, a começar do nariz, encrespava o rosto inteiro - como se uma pedra fosse atirada em águas calmas - e durava um tempo insuportavelmente longo.

Ele despertou minha curiosidade instantaneamente com suas visões peculiares da música. Falou de uma partitura orquestral como se fosse um quadro. Raramente usou palavras técnicas, mas a elegância obscura e levemente gasta de seu vocabulário deveras incomum pareceu tilintar como moedas velhas. Lembro-me de um paralelo que ele traçou entre a orquestração de Beethoven - que ele visualizava como uma fórmula em preto-e-branco resultando em uma admirável gradação de cinzas - e a de Wagner, um tipo de "maquilagem" multicolorida espalhada quase uniformemente, na qual, disse, ele não mais podia distinguir o som de um violino do som de um trombone.

Já que seu sorriso intolerável era especialmente evidente quando ele falava de música, decidi repentinamente perguntar qual seria sua profissão. Ele respondeu com uma voz que deteve qualquer tentativa de comentário: "Antidiletante". E então continuou, monótona e irritantemente:

"Já notou a hostilidade da audiência de uma sala de concerto? Já observou suas quase narcotizadas expressões de enfado, indiferença e mesmo estupidez? Eles nunca compreendem os nobres dramas tecidos no conflito sinfônico, no qual se tem consciência da possibilidade de atingir o cume da estrutura da harmonia e respirar ali uma atmosfera de perfeita beleza. Tais pessoas sempre parecem hóspedes mais ou menos bem-educados; elas suportam o tédio de sua posição com paciência, e continuam presentes apenas porque desejam ser vistas saindo ao final; de outra maneira, por que comparecer? Você tem de admitir que esta é uma boa razão para um eterno ódio à música."

Argumentei já ter observado e mesmo compartilhado de demonstrações de entusiasmo altamente louváveis. Ao que ele respondeu:

"Você está muito enganado; porque, se mostrou tanto entusiasmo, foi com a secreta esperança de que algum dia a mesma honra seja concedida a você. Logicamente você sabe que uma genuína apreciação da beleza pode unicamente resultar em silêncio? Diga-me, ao ver a maravilha diária do pôr-do-sol você alguma vez pensou em aplaudir? Contudo você admitirá que ele é um efeito muito menos ensaiado que todas as suas ninharias musicais. Ainda mais, cara a cara com o pôr-do-sol você se sente tão desprezível que não pode se tornar parte dele. Mas diante da chamada obra de arte você é você mesmo e dispõe de um jargão clássico que lhe dá oportunidade para a eloqüência.

Não ousei confessar o quanto eu concordava com ele, já que nada enfraquece mais uma conversa do que a concordância. Preferi perguntar se ele tocava algum instrumento. Ele ergueu a cabeça com ímpeto e replicou:

"Não gosto de especialistas. A especialização é para mim o estreitamento de meu universo. Ela me lembra aqueles velhos cavalos que, em dias passados, percorriam os caminhos e morriam ao som da conhecida melodia da Marche Lorraine(1)! No entanto, conheço toda a música e isto só me deu o orgulho especial de estar a salvo de todo tipo de surpresa. Dois compassos bastam para me dar a chave de uma sinfonia, ou de qualquer outro incidente musical.

"Embora possamos ter a certeza de que alguns grandes homens têm uma obstinada disposição de inovar, não é assim com muitos outros, que não fazem nada além de repetir a coisa na qual eles tiveram sucesso uma vez. Sua destreza me dá calafrios. Eles foram aclamados como Mestres. Cuidado para não considerar isto um modo cortês de se livrar deles ou desculpar a mesmice de seus espetáculos. Em resumo, tento esquecer a música porque ela obscurece minha percepção do que eu não sei ou deverei saber apenas amanhã. Por que agarrar-se a algo que se conhece bem demais?"

Mencionei o mais famoso de nossos contemporâneos e Monsieur Croche foi mais agressivo que nunca.

"Estou muito mais interessado nas impressões sentidas sincera e honestamente do que na crítica, que geralmente assemelha-se a variações brilhantes sobre o tema: 'Já que você não concorda comigo, você está errado'; ou ainda: 'Você tem talento, eu não tenho nenhum; é inútil continuar.' Em todas as composições eu me esforço para mergulhar nos diversos impulsos que inspiram a elas e sua vida interior. Isto não é muito mais interessante que o jogo de parti-las em pedaços, como se fossem relógios esquisitos?

"As pessoas esquecem que, quando crianças, eram proibidas de partir em pedaços seus bonecos - mesmo então tal comportamento era traição contra os mistérios -, e continuam querendo meter seus narizes estéticos onde não foram chamadas. Embora não mais estripem seus brinquedos, elas ainda explicam, partem em pedaços e, a sangue frio, assassinam os mistérios; é comparativamente fácil; além do mais, você pode tagarelar sobre isso. Certo, certo!, uma óbvia falta de entendimento exculpa algumas delas; mas outras agem com maior ferocidade e premeditação, pois precisam proteger seus estimados pequenos talentos. Estas últimas contam com um leal séqüito.

"Estou apenas levemente preocupado com trabalhos consagrados pelo sucesso ou pela tradição: de uma vez por todas, Meyerbeer(2), Thalberg(3), e Reyer(4) são homens de gênio; fora isso, não têm importância.

"Aos domingos, quando Deus é bondoso, não ouço música; por favor aceite minhas desculpas. Finalmente, tenha a bondade de anotar a palavra 'impressões', que é apropriada, já que me deixa livre para preservar minha emoção de todo estetismo supérfluo.

"Você tende a exagerar eventos que, no tempo de Bach, teriam parecido naturais. Você me fala da sonata de Dukas,(5). Ele é provavelmente um de seus amigos e até mesmo um crítico musical. Boas razões para falar bem dele. Sua exaltação, contudo, já é superada; pois Pierre Lalo(6), num artigo no Le Temps dedicado exclusivamente a esta sonata, sacrificou simultaneamente, por Dukas, as sonatas escritas por Schumann e Chopin. Realmente, o temperamento nervoso de Chopin não se adaptava à duração necessária à construção de uma sonata: ele fez elaborados 'primeiros esboços'. Ainda podemos dizer que Chopin inaugurou uma maneira especial de tratar esta forma, para não mencionar a encantadora obra que ele imaginou. Ele era fértil em idéias, que ele freqüentemente empregou sem exigir aqueles cem por cento na transação que são a maior glória de alguns de nossos Mestres.

"Lalo, é claro, evoca a nobre sombra de Beethoven em referência à sonata de seu amigo Dukas. Pessoalmente, eu deveria ter me sentido apenas um pouco lisonjeado! As sonatas de Beethoven são muito mal escritas para o piano; elas são, particularmente as que vieram depois, mais precisamente descritas como transcrições orquestrais. Freqüentemente parece faltar uma terceira mão que, tenho certeza, Beethoven ouvia; ao menos espero. Teria sido mais seguro deixar Schumann e Chopin em paz; indubitavelmente eles escreveram para o piano; e se isto não é suficiente para Lalo, ele deveria ao menos ser grato por eles terem aberto caminhos em direção à perfeição representada por um Dukas - e eventualmente alguns outros."

Monsieur Croche pronunciou estas últimas palavras com um impassível destaque: um desafio para ser aceito ou ignorado. Eu estava interessado demais para aceitá-lo e deixei-o continuar. Houve um longo silêncio, durante o qual não veio dele nenhum sinal de vida, a não ser a fumaça subindo de seu charuto em espirais azuis, que ele observava com interesse, como se estivesse contemplando estranhas distorções - talvez sistemas arrojados. Seu silêncio tornou-se desconcertante e alarmante. Finalmente, ele retomou:

"A música é uma soma total de forças dispersas. Você faz delas uma balada abstrata! Prefiro as notas simples da flauta de um pastor egípcio; pois ele colabora com a paisagem e ouve harmonias desconhecidas de seus tratados. Os músicos ouvem apenas a música escrita por mãos habilidosas, nunca a escrita pela natureza. Ver o Sol se levantar é mais lucrativo que ouvir a Sinfonia Pastoral. Qual é a utilidade de sua arte quase incompreensível? Você não deveria suprimir todas as complexidades parasíticas que tornam a música tão engenhosa quanto a fechadura de uma caixa-forte? Você se agita porque apenas conhece música e a submete a leis estranhas e bárbaras. Você é aclamado com elogios altissonantes, mas você é meramente habilidoso! Algo entre um macaco e um lacaio."

Arrisquei dizer que alguns tentaram com a poesia, outros com a pintura - acrescentei, tremendo, um ou dois músicos - sacudir a antiga poeira da tradição, e isso apenas fez com que eles fossem tratados como simbolistas ou impressionistas - termos convenientes para transformar um colega em alvo de escárnio.

"Apenas jornalistas e publicitários os tratam assim", continuou Monsieur Croche, sem vacilar, "e isto não tem importância. Uma bela idéia, em estado embrionário, tem algo de absurdo para os tolos. Há uma esperança de beleza mais certa nestes homens ridicularizados do que naquelas pobres ovelhas que afluem docilmente para os matadouros que um sagaz destino preparou para elas.

"Ser único, irrepreensível! Para mim, o entusiasmo da sociedade corrompe o artista, daí meu medo de que, como resultado, ele se torne meramente uma expressão da sociedade.

"É preciso buscar a disciplina na liberdade, e não nas fórmulas de uma filosofia obsoleta, só adequada aos fracos de espírito. Não dê ouvidos a nenhum conselho humano; mas ouça o vento, que ao passar conta a história do mundo."

Ao falar, Monsieur Croche parecia iluminado por dentro. Tive a sensação de enxergar através dele e suas palavras chegaram a mim como uma música estranha. Não posso descrever adequadamente sua peculiar eloqüência. Algo como isto, talvez:

"Você conhece algo mais esplêndido que descobrir por acaso um gênio que não foi reconhecido através das eras? Mas ter sido o próprio gênio - pode alguma glória igualar-se a esta?"

O dia rompia; Monsieur Croche estava visivelmente fatigado e foi embora. Acompanhei-o até a porta da escada; ele não pensou em apertar minha mão mais do que pensei em agradecê-lo. Por um tempo considerável ouvi o som de seus passos sumindo degrau por degrau. Não ousei ter a esperança de encontrá-lo de novo um dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas:

1. Marcha militar orquestral de Louis Ganne (voltar)

2. Giacomo Meyerbeer, nascido em Berlim, em 1791; morto em Paris, em 1864; compôs óperas de grande sucesso, como Robert le Diable, Les Huguenots e Le Prophète. (voltar)

3. Sigismund Thalberg, nascido em Genebra, em 1812; morto em 1871. Embora este compositor e artista tenha desfrutado de grande popularidade em sua época e exercido alguma influência sobre outros compositores, suas obras estão agora praticamente esquecidas (voltar)

4. Ernest Louis Etienne Rey, nascido em Marselha, em 1823; morto em 1909; conhecido pelo nome de Reyer, que ele considerava mais adequado a uma carreira musical, como o autor das óperas Sigurd, Salammbo etc. (voltar)

5. Paul Dukas, nascido em Paris, em 1865; autor de Ariane et Barbebleue, etc. (voltar)

6. Pierre Lalo, nascido em 1866; compositor e crítico musical de Le Temps (voltar)

Press releases e Moschella na imprensa Página principal Programação de recitais Amostras sonoras e em vídeo Imagens em estúdio, ao vivo, carreira, amigos Peças do repertório atual Textos sobre violão e música Outros sites interessantes e úteis Para recitais, aulas, master-classes, palestras Enter the site in English Deixe seu recado!