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O Estado de S. Paulo - 06/07/2003 - Tradução de Alexandre Moschella
Para Cunningham, dança contemporânea virou tédio
Aos 83 anos e na ativa, ele festeja o 50.º aniversário de sua companhia, que vem ao Brasil

JUDITH MACKRELL
The Guardian

NOVA YORK – O local preferido de Merce Cunningham para entrevistas é o saguão da sede de sua companhia de dança. Entre as portas e o estúdio de ensaios, o lugar é sem dúvida conveniente. Cunningham tem 83 anos e, embora algumas coisas não tenham mudado – a coroa grisalha, o olhar evasivo, o riso alegre e o nariz de boxeador –, a artrite está tão avançada que mesmo um pequeno desvio no caminho até o trabalho custa caro. O lugar, no entanto, chega a ser desconcertante de tão público.

Enquanto conversamos, várias pessoas surgem das portas. Todas param em reverência assim que vêem Cunningham, que foi declarado uma lenda viva pela Biblioteca do Congresso dos EUA. Algumas ensaiam um sorriso, outras apertam sua mão, uma ou outra beija seu rosto. Cunningham as recebe educadamente, mas confessa: “Todas essas pessoas... não sei quem são.” Cunningham, cuja companhia em 2003 completa 50 anos de existência, dominou a dança moderna por tanto tempo que ganhou o status de guru, sábio ou mesmo santo. As mudanças de tendências, o esgotamento artístico e a falta de fundos limitam as carreiras da maioria dos coreógrafos há cerca de uma década; mesmo assim, Merce sobreviveu para se tornar um ponto de referência. Mas com seu status veio uma inevitável solidão: ninguém mais de sua idade ou estatura ainda trabalha na área, e seu colaborador e parceiro de longa data, John Cage, está morto.

Assim, é fácil imaginar que o mundo criativo de Cunningham é solitário. Mas ele nega, com sua animação característica. Sua abordagem da dança foi tão revolucionária no começo (com a criação de coreografias independentes de partituras ou roteiros) que ele não tinha ninguém para falar sobre isso. “Quando eu tentava trabalhar com os dançarinos modernos em Nova York, eles não viam sentido no que eu fazia, e os dançarinos de balé eram ainda piores. Por isso, as pessoas com quem eu conversava eram sempre músicos e artistas visuais.” Ele emite uma de suas risadas profundas e ruminantes. “Preferia essas pessoas aos dançarinos – elas têm muito a dizer.” Hoje em dia, um de seus raros amigos do mundo da dança é o coreógrafo Mark Morris (um fã devoto de Merce). “Gosto muito de conversar com Mark”, diz Cunningham. Ele insiste, porém: “Não tem nada a ver com dança. É porque ele tem um senso de humor maravilhoso.” Quando pergunto sobre o que eles conversam, Cunningham se mostra um pouco esquivo.

“Falamos sobre desenho. Estou desenhando muito agora. É uma maneira muito eficaz de fugir dos problemas.” A verdade é que Cunningham raramente assiste a outras apresentações de dança. Ele diz que tem pouco tempo. Mas também admite, do modo mais polido de que é capaz, que acha grande parte do que assiste maçante.

“Os dançarinos fazem uma frase e então a repetem exatamente do mesmo jeito. Costumo dizer: não façam de novo, mas mudem o espaço, mudem o ritmo, para que o olho receba algo diferente.” As coreografias que acompanham a música o incomodam tanto que ele começa a desmontar os passos compulsivamente, para reinventá-los. Isto não soa tão rude visto como uma confirmação do fato de que sua “relação com a dança agora realmente se dá apenas através de minha companhia”.

Mas Cunningham de maneira nnenhuma se retirou para um mundo particular. Ele continua assustadoramente produtivo (quatro das obras do ano passado em Londres foram criadas nos dois anos anteriores) e infinitamente curioso sobre novas maneiras de trabalhar. E se o resto do mundo da dança não oferece esse estímulo, ele o encontra em outro lugar, particularmente em novas tecnologias.

Computador – Ao longo dos últimos 15 anos, o vocabulário de Cunningham foi enriquecido por um programa de computador que lhe permite criar coreografias por meio de figuras na tela. É muito mais que uma ferramenta conveniente, pois os corpos eletrônicos à sua disposição não são limitados nem pelo hábito nem pela anatomia. Cunningham pode congelar esses dançarinos à medida que eles se movem entre as posições e encontrar novas possibilidades. Ele pode brincar com a posição de seus braços e pernas, acrescentar detalhes às suas mãos e acelerar sua velocidade. Às vezes os dançarinos em carne e osso não são capazes de imitar os colegas eletrônicos. “Freqüentemente é muito difícil demonstrar o que quero”, diz ele. “Mas alguns dançarinos podem realizar os movimentos exatos. Sinto que, se uma pessoa consegue, todas são capazes.” Para seu recente trabalho Fluid Canvas (Tela Fluida), Cunningham exigiu uma velocidade e uma complexidade de fraseado que desafiaram seus dançarinos “como nunca”.

Essa obra também retrata sua atual paixão pelas técnicas de captura de movimento e imagens digitais. Os cenógrafos de seu magistral Biped (Bípede), de 1999, criaram um palco que parecia uma catedral transparente, construída com estruturas pulsantes de luz, enquanto os dançarinos reais pareciam ter a companhia de criaturas virtuais que flutuavam e rodavam em outra dimensão. Em Fluid Canvas, as imagens digitais são abstratas – mas nascidas dos movimentos dançantes das próprias mãos de Cunningham. Ele as ergue, manchadas, frágeis e um pouco trêmulas, para mostrar como seus movimentos foram mapeados por câmeras para servir de matéria-prima. E embora a instalação resultante seja imensa e irreconhecível enquanto atividade humana, há um simpático simbolismo secreto no fato de os dançarinos se apresentarem “dentro” das próprias mãos do coreógrafo.

Cunningham é fascinado pelo potencial de desenho da nova tecnologia porque suas imagens podem mudar rapidamente, como as da tevê ou do vídeo. Mas ele mantém um interesse leal, embora frio, por seus trabalhos antigos, quatro deles reencenados este ano em Nova York. Entre eles, o clássico How to Pass, Kick, Fall and Run (Como Passar, Chutar, Cair e Correr), de 1965, cujo “acompanhamento” é uma série de histórias de autoria de Cage. Por muitos anos elas foram recitadas durante as apresentações, nas vozes de Cage e do escritor David Vaughn, que decidiam antes que histórias seriam lidas por quem, em que momentos. Às vezes ambos recitavam juntos; às vezes, ambos ficavam em silêncio. “O efeito lembrava um parque de diversões cheio de crianças, com essas duas velhas no canto, falando de coisas completamente irrelevantes”, diz Cunningham. A Merce Cunningham Dance Company estará no Brasil em setembro, dos dias 2 a 4 no Teatro Municipal de São Paulo e 6 e 7 no Rio, para comemorar os dez anos da Série Antares Dança.

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